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  • Alexandrina Dutra

BEATA MARIA: UM CORAÇÃO DE MISERICÓRDIA


Quem conhece as “obras de misericórdia corporais e espirituais” e olha com “olhos de ver” a vida e a obra da Beata Maria do Divino Coração não pode deixar de ficar surpreso por encontrar na vida da Irmã Maria Droste, cada uma dessa obras vivida com intensidade. Foi o desejo de viver a misericórdia que a levou a entrar na Congregação do Bom Pastor para imitar o Coração de seu Esposo, como ela gostava de afirmar, sempre bom, compassivo e misericordioso. Contemplar Jesus e sua misericórdia no Evangelho era para a Beata Maria continua fonte de graça e de desejo de ser misericórdia como Ele, o “amigo dos pobres e pecadores”. A vida da Beata foi um ícone vivo da misericórdia do Bom Pastor, d’Aquele que S. Pedro afirma que “passou fazendo o bem e curando a muitos”.

Como ela mesmo afirmou a grande lição desta arte de misericórdia começou em sua casa onde seu pai, que se chamava a si mesmo o “despenseiro de Deus”, estava convicto que "toda a fortuna que Deus me dá, não me pertence, é para distribuir!" E distribuía mesmo, fazendo muito bem à sua volta, socorrendo pobres, doentes, situações de carência e de dor. Foi nesta escola que a Beata começou a aprender as “obras de misericórdia”. Pelos testemunhos que temos não faltava uma a ser vivida com paixão, dedicação, generosidade e encanto pelos seus pais e ensinada a seus filhos. Quanto bem fez e quanto sofrimento mitigou. Com seus pais e com a caridade intensa que exerciam, a Beata Maria cresceu num ambiente em que o amor do próximo era algo natural, se praticava intensamente no dia-a-dia. O “despenseiro” de Deus” ia distribuindo, ajudando, aliviando dores e misérias, matando a fome, vestindo nus, dando emprego, consolando, curando enfermos, enxugando lágrimas, ajudando a todos de todos os modos possíveis. Mas o cuidado com os valores morais e o bem espiritual dos que o rodeava a ele e à família, não era menor que os cuidados com a fome ou a doença. A Irmã Maria vivia este ambiente diário e aprendeu bem a lição.

Na Congregação, contemplando sem cessar o Coração de Misericórdia do Bom Pastor, a Irmã Maria conseguiu aprender ainda mais o jeito divino de amar, de servir, de estar atenta aos pobres, aos doentes, aos carenciados, aos pecadores. A paixão pelas suas educandas era a vivida pelo seu coração de “mãe” que amava suas filhas e se dedicava a elas desejando seu bem humano e sua santidade, como contínua obra de misericórdia, com o coração debruçado sobre as mais débeis, as mais carenciadas de afecto, as de famílias mais necessitadas, as que chegavam mais rudes ou com mais vícios. Sabemos como, já no Porto, vivia para os outros, visitava doentes, dava alimentos, ajudava carências morais. Quanto bem fez na sua acção evangelizadora ajudando a regularizar pelo sacramento do matrimónio a vida de muitos casais que viviam juntos ou só casados pelo civil. Promoveu e ajudou a que muitos fossem batizados e, bastantes adultos, fizessem sua primeira confissão e sua primeira comunhão.

Muitos a procuravam para desabafar, pedir conselhos, desabafar suas mágoas, chorar suas lágrimas, confiar às suas orações seus problemas e dificuldades. Uma sua contemporânea e amiga escreveu o seguinte: “Todos saíam de junto dela felizes e satisfeitos. Atendia a todos. Quantas reconciliações não obteve”. Mas ela não só rezava por eles como procurava soluções: empregos, esmolas, apoio moral, paz na família, internamento de doentes, etc. Deixava-se ajudar por pessoas amigas e por famílias com mais bens materiais para que aos mais pobres e doentes não faltasse nada. Conseguia esmolas para pagar os estudos de seminaristas de famílias mais simples e pobres. Era a amiga de todos, procurava exercer com todos a misericórdia do Bom Pastor. Uma testemunha afirma o seguinte: “Todos os dias um grande número de pobres recebiam o seu jantar completo. Nestes últimos anos de miséria em que todos os víveres eram muito caros, perto de 60 destes infelizes vinham receber à porta uma tigela de sopa e um bocado de pão, diariamente. Também mandava levar ao domicílio a algumas pessoas doentes.”

Mas é curioso notar que muitos sacerdotes recorriam a ela para pedir ajuda espiritual e receber seus conselhos. Parece que alguns mais desencaminhados conseguiram, com sua palavra, sua amizade e sua oração, apaixonarem-se por Jesus e pelo sacerdócio que receberam. Havia mudança, conversão, caminhos novos de vida e de santidade. Até aqui se estendia a sua obra de misericórdia, o seu coração que amava a todos, a sua paixão pela Igreja e pelos sacerdotes. Como sabemos foi através da sua influência e da ajuda da sua família e de muitos benfeitores que ela conseguiu, que se construísse o edifício do Colégio Português de Roma que ainda hoje recebe sacerdotes de várias dioceses, sobretudo portuguesas, para fazerem em Roma seus estudos. Como prova de gratidão a nossa querida Beata é homenageada nessa casa e venerada num quadro e dedicatória recordando seu trabalho e sua paixão pelos sacerdotes.

Ao referir-se ao seu apostolado com os mais pobres e carenciados, a Beata escreveu: “Nosso Senhor deu-me uma graça especial para me entender com estas pobres pessoas e compreendê-los muito bem”. E di-lo com coração humilde na alegria de servir e fazer bem. E noutra passagem escreveu: “Os pobres atraem-me cada vez mais e eu quero ser pobre com os pobres.” Que maravilha: “ser pobre com os pobres”. É este o mais alto grau da misericórdia. Foi isto que realizou Jesus, o Verbo do Pai, o Rei e Senhor do Universo: “ser pobre com os pobres”, no seu total aniquilamento, esvaziamento, na sua paixão em dar a vida por amor. A Beata Maria exerceu a sua misericórdia até este profundo desejo: “ser pobre com os pobres”. Deus lhe deu essa graça que ela viveu apaixonadamente. Era uma consagrada, uma mulher com um coração de misericórdia.

Pe. Dário Pedroso s.j.

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